Quatro em cada dez inadimplentes permanecem presos ao mesmo ciclo de dívida há uma década; cenário deve transformar consumo no segundo semestre
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Especialista avalia que comportamento do consumidor será marcado por mais planejamento nas principais datas do varejo

O primeiro semestre de 2026 consolidou uma mudança importante no comportamento financeiro dos brasileiros. Mais do que o aumento da inadimplência, os números mostram que o país convive com um problema que deixou de ser passageiro para se tornar estrutural. Levantamento da Serasa revela que 42% dos consumidores negativados atualmente já estavam inadimplentes há dez anos, o que significa que quatro em cada dez brasileiros permanecem presos a um ciclo recorrente de endividamento.

O estudo mostra ainda que o número de inadimplentes cresceu 38% na última década, passando de cerca de 59 milhões para 81,7 milhões de pessoas. No mesmo período, o valor total das dívidas aumentou aproximadamente 55%, chegando a R$ 539 bilhões. Na avaliação da Multimarcas Consórcios, esses indicadores ajudam a explicar por que o consumidor deve chegar ao segundo semestre mais cauteloso, justamente no período que concentra algumas das principais datas para o comércio, como as férias escolares de julho, o Dia dos Pais, a Black Friday e o Natal.

O consumidor não deixou de sonhar nem de consumir, mas passou a fazer contas antes de realizar uma compra. Depois de conviver durante anos com um cenário de endividamento recorrente, as famílias passaram a avaliar com muito mais atenção o impacto de uma nova parcela no orçamento. O crédito deixou de representar apenas uma facilidade e passou a ser encarado como um compromisso que precisa caber na renda ao longo do tempo“, afirma Patrick Santos, doutor em Economia e gerente de planejamento da Multimarcas Consórcios

Segundo Patrick, esse comportamento deve ser percebido ao longo de todo o segundo semestre. As férias de julho tendem a impulsionar viagens mais curtas e compatíveis com o orçamento familiar. Este movimento do consumidor já pode ser confirmado na outra ponta com os hotéis e resorts. Dados exclusivos do Morro dos Anjos Resorts mostram que 45% das reservas são efetuadas entre 15 e 60 dias antes da hospedagem, período que concentra a principal janela de decisão dos hóspedes. As chamadas reservas de última hora, realizadas entre zero e 14 dias antes da chegada, representam 30% do total das vendas do resort. 

No Dia dos Pais, a expectativa é de maior procura por presentes de menor valor agregado e compras previamente planejadas. Na Black Friday, apesar da busca por promoções continuar elevada, o consumidor deve pesquisar mais antes de fechar negócio, comparar condições de pagamento e evitar compras por impulso motivadas apenas pelo desconto. Já no Natal, a tendência é que as famílias priorizem presentes que caibam no orçamento disponível, reduzindo a dependência do crédito de curto prazo e do parcelamento excessivo.

Para o especialista, o que está em curso não é uma retração do consumo, mas uma transformação na forma como os brasileiros se relacionam com o dinheiro. A experiência acumulada ao longo dos últimos anos fez com que muitas famílias passassem a valorizar planejamento, previsibilidade e segurança financeira antes de assumir novos compromissos. Essa mudança deve fortalecer hábitos como a pesquisa de preços, a comparação entre diferentes formas de pagamento e a busca por modalidades de aquisição que permitam organizar o orçamento sem a incidência de juros elevados.

O dado mais preocupante não é apenas o crescimento da inadimplência, mas a dificuldade que milhões de brasileiros têm para romper esse ciclo. Quando quatro em cada dez consumidores negativados hoje já enfrentavam esse problema há uma década, percebemos que o desafio deixou de ser apenas econômico e passou a exigir planejamento financeiro e escolhas mais conscientes. Isso explica por que acreditamos que o segundo semestre será marcado por um consumidor mais seletivo, menos impulsivo e muito mais atento à forma como utiliza o crédito”, conclui Patrick.

Esse novo perfil deve influenciar diretamente o desempenho das principais datas comerciais até o fim do ano. O consumidor continuará comprando, mas a tendência é que priorize decisões planejadas, preserve o orçamento familiar e busque alternativas que permitam realizar objetivos sem ampliar um endividamento que, para milhões de brasileiros, já se tornou uma realidade persistente.

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