Estreia “Afroapocalíptico” – novo trabalho do Grupo dos Dez leva teatro e reinado mineiro para galeria, no Palácio das Artes
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Companhia referência no teatro negro brasileiro (espetáculo Madame Satã), convida o espectador a uma experiência imersiva, ancorada nas tecnologias ancestrais, que aguça os sentidos mesclando teatro e artes visuais

 

No dia 17 de março, terça-feira, às 19h, estreia “Afroapocalíptico”. Novo trabalho do Grupo dos Dez (Madame Satã), propõe ao espectador uma experiência artística imersiva e sensorial que leva o teatro para dentro da Galeria Genesco Murta, no Palácio das Artes. Durante o percurso, o público é dividido em dois grupos e conduzido por um labirinto de instalações sonoras e visuais. Em meio a tambores, texturas, bombardeios, objetos do Reinado e cheiros de ervas, os visitantes são atravessados pela tradição do Congado mineiro e as tragédias humanas. Dirigida por Rodrigo Jerônimo e Ana Paula Bouzas (BA), com instalação sonora e direção musical de Bia Nogueira, sob a assistência de Júlia Tizumba e dramaturgia de Marcos Fábio de Farias, a peça segue em cartaz até 29 de março, de terça a domingo, às 19h. Já as obras de arte da encenação estarão expostas à visitação até 5/04, no horário de funcionamento da galeria no Palácio das Artes, de terça a sábado, das 9h30 às 21h, e no domingo, das 17h às 21h. O acesso é gratuito. Mais informações: @grupodosdez.

 

Esta temporada de estreia e a exposição fazem parte do projeto “Grupo dos Dez – 15 anos de Teatro Negro”, aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, com a realização Ministério da Cultura, Governo do Brasil – do lado do povo brasileiro e apresentação da Petrobras que prevê mais de 60 apresentações em sete estados, reunindo obras inéditas, espetáculos consagrados e ações formativas que ampliam o diálogo entre arte, memória e território.

 

Afroapocalíptico

Afroapocalíptico, conceito cunhado por Rodrigo Jerônimo, nasce em 2018 quando o ator do Grupo dos Dez participa de residência artística em uma galeria de Nova York (EUA). A sensação de se sentir deslocado como artista de teatro, negro, naquele contexto, gera uma série de escritos que foram reunidos no livro “Afroapocalíptico”, assinado por Jerônimo em parceria com Marcos Fábio de Faria, publicado e lançado pela editora Aquilombô, em 2023, e que, agora, chegam a cena.

 

Rodrigo comenta que o conceito Afroapocalíptico é forjado na ideia de que o apocalipse não ocorre como resultado de uma profecia e nem deve ser encarado como o ato final. “O mundo já ‘acabou’ quando a humanidade foi destruída pela violência do Estado e do Capital. Todos os que ainda permanecem — negros, indígenas, LGBTQIA+, mulheres, crianças — são vistos como sobreviventes de um trauma coletivo iniciado na Escravidão, considerada a maior catástrofe humana da história, da qual até hoje sofremos as consequências. Mesmo que a gente acabe com o meio ambiente, se sobrar um pedacinho de planeta, ainda assim é planeta e ele vai continuar e se reestruturar. Aqui estamos falando da possibilidade de extinção da raça humana pelo próprio homem. Nós aqui somos sobreviventes a essa hecatombe de genocídios de negros, indígenas, palestinos etc. Esses valores que estão aí não deram certo. Só precisamos de uma nova forma de estar no mundo e essa resposta é a tradição ancestral”, afirma.

 

Na dramaturgia de “Afroapocalíptico”, Jerônimo e Marcos Fábio de Faria deslocam, assim, a ideia ocidental de apocalipse como destruição final e propõe outra chave: o afroapocalipse como resposta, como solução construída a partir da tradição do congado.

 

A cena

Em cena dentro da galeria, duas grandes instalações em formato de espiral. Fora dela, os escombros do mundo, as tragédias humanas (Palestina, Brumadinho, Mariana etc), de onde partem sonoridades como sirenes, bombardeios, ruídos humanos. A instalação assinada por Bia Nogueira, reúne canções, instrumentos musicais, coroas, cheiros de ervas.

 

Logo no início, uma capitã de reinado (interpretada pela atriz Kátia Aracelle) resiste mantendo viva a tradição ‘congadeira’. Ela conduz os últimos sobreviventes que ainda restaram (no caso o público), para presenciar suas armas da resistência. Entre eles, está o ator Rodrigo Jerônimo. O público, dividido em dois grupos, vivencia uma experiência multilinguagem e sensorial de cerca de 40 minutos. Após as sessões do espetáculo, as instalações permanecem abertas para visitação.

 

“Afroapocalíptico não é sobre ruína, mas sobre permanência. Não anuncia o fim, mas revela os modos de seguir existindo. É uma obra que articula ritual, teatro, música e política para afirmar que, diante do colapso imposto, a experiência negra nunca foi apenas sobrevivência, mas reinvenção contínua do mundo”, conclui Rodrigo.

 

Ao lado de Rodrigo Jerônimo, a diretora baiana Ana Paula Bouzas – contemporânea de Wagner Moura e Lázaro Ramos, e preparadora de elenco dos filmes “Marighela” e “Torto Arado” – destaca o impacto da obra no público: “Há um desejo de partilhar com o espectador o que temos investigado nesse campo e propor uma vivência que já traz alguns resultados, pra nós, bem provocadores, a exemplo do espaço onde ela se dará: a galeria de arte. A partir daí, temos alterações substanciais na relação entre artistas da cena e público. Essa é uma das reverberações dessa fricção entre o teatro e as artes visuais, e que aponta diretrizes outras, tanto na construção do pensamento sobre a encenação, como no modo de atuar. Tudo tem sido pensado e vivido a partir desse convívio instigante e desafiador entre as linguagens. Uma pesquisa que seguirá viva, certamente, a cada sessão”, diz.

 

Outra contribuição importante para o espetáculo é a da cantora e pesquisadora da cultura afromineira Júlia Tizumba, que assina a assistência de direção. Com uma forte ligação com a cultura do Congado e do Candomblé, no espetáculo, Júlia contribui com uma seleção de ‘tesouros’. “Cânticos, ritmos, danças, símbolos e elementos do Reinado que podem servir como faróis para a construção de um mundo de mais igualdade e dignidade para todas as pessoas”, diz. A artista também está ao lado de Ana Paula Bouzas na materialização desses saberes no corpo dos atores, na descoberta da espacialidade e na criação da encenação.

 

Resiliência Negra

Inspirado nas histórias, estratégias e tecnologias sociais desenvolvidas pelos quilombos mineiros, o espetáculo Afroapocalíptico investiga8 as formas de sobrevivência forjadas em meio ao terror colonial. Nesse sentido, a peça dialoga com a figura de Chico Rei, que utilizou a malandragem como arma política, escondendo ouro nos cabelos para comprar alforrias e libertar centenas de africanos que, como ele, vieram traficados ao Brasil: do Congo para trabalhar como escravizados nas minas de ouro de Minas Gerais. “O ouro, em Afroapocalíptico, deixa de ser símbolo da exploração colonial e passa a representar aquilo que foi produzido, arrancado e apropriado da população negra. Devolver o ouro é devolver poder, memória, autonomia e futuro”, explica Rodrigo Jernônimo.

 

Sobre o Grupo dos Dez

Criado em 2009, o Grupo dos Dez consolidou-se como referência nacional ao investigar a interseção entre o teatro negro e o teatro musical tipicamente brasileiro, forjado na riqueza das tradições populares do Brasil. Ao longo de sua trajetória, a companhia lançou luz sobre temáticas urgentes: a homoafetividade, os desafios enfrentados pela população negra brasileira, a luta das mulheres e o enfrentamento a todas as formas de opressão LGBTQIAPN+. Suas obras ecoam memórias coletivas, cantos ancestrais e narrativas historicamente silenciadas.

Nascido do ímpeto criativo de sete artistas determinados a pesquisar uma linguagem musical que tivesse como matriz a cultura brasileira e as culturas africanas e indígenas, o grupo encontrou na orientação do dramaturgo João das Neves e da cantora Titane o acolhimento e o rigor necessários para lapidar um modo próprio de estar em cena, marcado pelo sotaque, pelo corporeidade e pela sensibilidade mineira. Ainda em 2009, subiu pela primeira vez ao palco no 1º Festival de Musicais de Belo Horizonte, apresentando Sagas no País das Gerais, dirigido pelos dois mestres que acompanharam o nascimento da companhia.

 

Em seus 15 anos de existência, o Grupo dos Dez estreou também Evangelho Bárbaro (Elisa Santana e Marcelo Onofre), Madame Satã (João das Neves e Rodrigo Jerônimo) e Dandara para Todas as Mulheres (Bia Nogueira). Somam-se a isso as colaborações nas montagens de Rueiros (Fio Cena), Chico Rei (Companhia Pé de Pano), Todos os Animais são Iguais (Companhia Sobrilá) e Filofobia (In cena).

 

A companhia e seus integrantes também são responsáveis por iniciativas que fortalecem a cultura afroindígena brasileira, como o Aquilombô – Fórum Permanente de Artes Negras (2018 ao presente), o Festival Imune (2016 ao presente) e o Laboratório Editorial Aquilombô (2017 ao presente). Com essas ações, o grupo consolida-se como um importante ponto de promoção da empregabilidade negra LGBTQIAPN+ no teatro, na literatura e na música, abrindo caminhos para novas vozes e para obras que, muitas vezes, não encontram espaço no setor cultural tradicional.

Assim, ao mesmo tempo em que cria espetáculos, o Grupo dos Dez também semeia territórios de memória, formação e futuro. E tece, com técnica e poesia, um legado que celebra a ancestralidade, impulsiona novas narrativas e reafirma a potência transformadora do teatro negro brasileiro.

 

SERVIÇO

Temporada de estreia do espetáculo “Afroapocalíptico”

Direção: Ana Paula Bouzas e Rodrigo Jerônimo

Atuação: Kátia Aracelle e Rodrigo Jerônimo

17 a 29 de março, terça a domingo, às 19h

Galeria Genesco Murta / Palácio das Artes

Além das sessões, as instalações do espetáculo seguem expostas até 5 de abril, para visitação, no horário de funcionamento das galerias do Palácio das Artes:

Terça a sábado, das 9h30h às 21h.

Aos domingos, das 17h às 21h

O acesso é gratuito.

(Não é necessária retirada de ingresso para participação)

Mais informações: @grupodosdez

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