Morango do amor e a febre do açúcar: o que a ciência revela sobre a doçura dos doces brasileiros por Maria Fernanda Cestari
Mais do que a quantidade, a intensidade: o morango do amor e a febre do açúcar como símbolos da doçura brasileira.
Poucos símbolos das festas populares são tão marcantes quanto a maçã do amor. Criada em 1908, em Nova Jersey (EUA), por um confeiteiro que mergulhou a fruta em calda de açúcar vermelho, o doce viajou o mundo e, no Brasil, ganhou fama nas quermesses.
O responsável por batizá-la como “maçã do amor” foi um comerciante que enxergou no vermelho brilhante e no formato arredondado a metáfora perfeita para oferecer como presente carinhoso. O gesto virou moda: dar uma maçã coberta de açúcar passou a ser uma forma simbólica de demonstrar afeto.
Nos Estados Unidos, a versão chamada caramel apple surgiu décadas depois, quando um confeiteiro aproveitou os caramelos que sobravam das festas de Halloween para cobrir maçãs. Já no Brasil, a criatividade culinária seguiu seu próprio caminho: a partir dos anos 1980, padarias popularizaram o bombom de morango, e mais recentemente nasceu o morango do amor. Alguns dizem que sua criação foi obra de uma confeiteira, há cerca de quatro anos. Verdade ou mito, o fato é que, apesar de delicioso, o morango caramelizado pode ser um grande desafio para crianças que ainda não dominam bem a mastigação.
Há quem atribua a origem desses doces a outros países como Espanha ou regiões da Ásia. E, de fato, frutas envoltas em açúcar fazem parte da tradição de diversos países. A diferença é na espessura do açúcar, geralmente mais fina e menos doce do que na versão brasileira. Aqui, a abundância no açúcar e no leite condensado, acabou transformando as sobremesas em algo intenso e, em alguns casos, até mesmo, enjoativo.
Essa intensidade não se limita apenas ao sabor: estudos mostram que a textura crocante, como a do caramelo duro, e a textura macia, como a do chocolate ou do caramelo cremoso, ativam respostas sensoriais distintas no cérebro, influenciando tanto a percepção de sabor quanto a aceitação do alimento (Rolls, 2017).
Mas afinal, porque os doces brasileiros são tão doces?
Aqui está o ponto-chave: não se trata apenas da quantidade consumida, mas da intensidade do doce em si.
Enquanto em muitos países, as sobremesas se apoiam na doçura natural de frutas secas (como tâmaras) ou em combinações menos açucaradas, no Brasil predominam receitas carregadas de açúcar refinado, leite condensado e caldas espessas.
Desde o período colonial, a cana-de-açúcar moldou a economia, a culinária e o paladar brasileiro. Isso explica por que, mesmo em pequenas porções, nossos doces podem equivaler a uma dose altíssima de açúcar.
Esse padrão cultural tem reflexos importantes:
As crianças são expostas precocemente a sabores muito intensos, o que pode condicionar o paladar e dificultar a aceitação de frutas, legumes e verduras.
Mesmo consumindo pouco, o impacto do “muito doce” já é significativo, antecipando problemas como obesidade, diabetes tipo II e cáries.
Essa intensidade pode explicar por que complicações associadas ao açúcar aparecem cedo no Brasil, independentemente da quantidade absoluta ingerida.
E a fonoaudiologia nessa história?
Na terapia alimentar, essas variações são ferramentas importantes. Uma criança que não aceita a fruta “in natura” pode, por exemplo, se aproximar dela primeiro pelo formato lúdico,
pela cobertura ou pela textura diferente. O caminho não é linear: cada contato, seja pela maçã crocante, pelo morango coberto de chocolate ou pela versão caramelizada, conta como uma experiência sensorial que constroi confiança e amplia o repertório alimentar.
Mais do que doces de festa, esses exemplos nos mostram como a exposição progressiva a diferentes intensidades de sabor e textura pode ser usada como recurso terapêutico. Assim como na tradição popular, a criatividade é chave para transformar o difícil em possível, e até em prazeroso.
Referências
Cermak, S. A., Curtin, C., & Bandini, L. G. (2020). Food Selectivity and Sensory Sensitivity
in Children with Autism Spectrum Disorders. Journal of the American Dietetic Association.
Taylor, C. M., et al. (2022). Food fussiness and avoidant/restrictive food intake disorder
(ARFID): a review of clinical features, similarities and differences. European Eating
Disorders Review.
Rolls, E. T. (2017). The representation of oral texture and flavor in the human brain. Food
Quality and Preference.
Organização Mundial da Saúde (OMS). Diretrizes de ingestão de açúcar.

Sobre a autora
Maria Fernanda Cestari é fonoaudióloga e professora na área de alimentação infantil. Atua com foco em alimentação infantil, autora de materiais educativos sobre questões alimentares.
