“Nem toda obesidade se trata com canetas”, defende médico
As canetas para emagrecimento transformaram o tratamento da obesidade e vêm mudando a rotina dos consultórios em todo o país. Com a ampliação do acesso a medicamentos como os agonistas de GLP-1 e GIP/GLP-1, muitos pacientes passaram a adiar ou até descartar procedimentos como o balão intragástrico e a cirurgia bariátrica.
No entanto, especialistas alertam que esses tratamentos continuam sendo fundamentais para determinados perfis e que não existe uma solução única para todos os casos. Em 2026, o Brasil segue convivendo com o avanço da obesidade, condição que afeta milhões de pessoas e aumenta significativamente o risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e outras complicações.
Na avaliação do médico gastroenterologista e cirurgião geral Dr. Mauro Jácome, a popularização das canetas realmente reduziu a procura por procedimentos invasivos, mas isso não significa que eles tenham perdido a relevância. “Nem toda obesidade se trata com canetas. Na prática clínica, percebemos sim uma diminuição na busca pelo balão intragástrico e até pela cirurgia bariátrica. Ainda assim, esses tratamentos continuam tendo indicações muito bem estabelecidas e podem ser a melhor alternativa para determinados pacientes”, afirma.
Segundo o especialista, a escolha do tratamento deve considerar fatores como índice de massa corporal, doenças associadas, histórico de tentativas de emagrecimento e capacidade de manter mudanças no estilo de vida. “As canetas representam um avanço extraordinário, mas elas não substituem uma avaliação médica individualizada. Há pacientes que terão excelentes resultados apenas com a medicação, enquanto outros precisarão do balão ou da cirurgia para alcançar uma perda de peso adequada e melhorar a saúde”, explica.
Embora os medicamentos apresentem resultados expressivos na redução do peso corporal, eles exigem acompanhamento contínuo e mudanças de hábitos para que os benefícios sejam mantidos. Além disso, a interrupção do tratamento pode favorecer a recuperação do peso em parte dos pacientes. Já a cirurgia bariátrica continua sendo considerada o tratamento mais eficaz para casos de obesidade grave, especialmente quando há doenças associadas, enquanto o balão intragástrico permanece como uma alternativa para pacientes criteriosamente selecionados.
Dr. Mauro Jácome destaca ainda que as diferentes estratégias não devem ser vistas como concorrentes, mas como ferramentas complementares dentro do tratamento da obesidade. Em muitos casos, inclusive, as medicações podem ser utilizadas antes de um procedimento para reduzir riscos cirúrgicos ou depois dele para ajudar na manutenção da perda de peso. “O mais importante é compreender que estamos tratando uma doença crônica e complexa. O sucesso depende de um plano terapêutico personalizado, elaborado por uma equipe multidisciplinar”, ressalta.
Por último, o especialista reforça que a crescente procura pelas canetas também exige cautela diante da automedicação e do uso sem indicação clínica. “Nenhum tratamento deve ser iniciado apenas porque está em evidência. A escolha precisa ser baseada em critérios científicos, sempre levando em consideração as características de cada paciente e os objetivos do tratamento”, conclui.
