Pesquisa aponta que mais da metade dos profissionais do Direito já utiliza inteligência artificial, enquanto especialistas defendem equilíbrio entre tecnologia e atuação humana
A Inteligência Artificial deixou de ser um tema prospectivo para se consolidar como elemento estruturante da prática jurídica no Brasil. Levantamento recente sobre o uso de ferramentas de IA generativa no setor mostra que mais da metade dos profissionais do Direito já incorporou essa tecnologia à rotina de trabalho.
Isso de acordo com o “Relatório Impacto da IA Generativa no Direito”, realizado pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo (OAB-SP) em parceria com a Trybe, o Jusbrasil e o Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio). Os dados revelam não apenas adesão crescente, mas uma mudança concreta na forma como escritórios, departamentos jurídicos e órgãos públicos organizam informação, produzem peças e conduzem pesquisas.
Para o advogado Leonardo de Campos Melo, a presença da IA tornou-se indissociável da noção contemporânea de tempo na advocacia. “Trata-se de uma ferramenta essencial para lidar com grandes volumes de dados e documentos, permitindo pesquisas mais rápidas e organizadas. O uso adequado da tecnologia, afirma, gera ganhos claros de velocidade, eficiência e precisão, com reflexos diretos na qualidade do serviço jurídico entregue ao cliente”, salienta.
Os números da pesquisa reforçam essa percepção. Mais de 55% dos entrevistados afirmam utilizar IA generativa em atividades profissionais, sobretudo na análise e no resumo de documentos, na elaboração de peças e na pesquisa de doutrina e jurisprudência. A adoção varia conforme o perfil. Advogados autônomos apresentam índice próximo da metade, enquanto profissionais vinculados a escritórios, empresas privadas e ao setor público superam os 60% de uso regular.
Entre aqueles que recorrem à tecnologia com maior frequência, os impactos positivos são evidentes. A maioria utiliza ferramentas de IA ao menos uma vez por semana e identifica redução significativa do tempo dedicado a tarefas repetitivas, além de melhora na consistência técnica dos documentos e aumento da produtividade. O efeito, segundo o estudo, não se limita ao desempenho individual, mas alcança a eficiência institucional.
“Contudo, acredito que há limites claros para a atuação da IA no contencioso estratégico. A tecnologia ainda não é capaz de identificar, com precisão, os pontos determinantes de disputas complexas. A leitura das nuances do caso, a escolha do tom argumentativo adequado e a compreensão do perfil dos julgadores seguem dependentes de experiência, sensibilidade e escuta ativa. Esses elementos, afirma, permanecem essencialmente humanos”, acrescenta o advogado.
O avanço da IA no Direito, portanto, não elimina o protagonismo do advogado, mas redefine seu papel. A tecnologia já ocupa espaço definitivo na advocacia, inclusive em áreas tradicionalmente resistentes à automação. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre aquilo que os algoritmos aceleram e o que somente a atuação humana é capaz de construir. É nesse ponto de convergência que, segundo Leonardo, a prática jurídica contemporânea se desenvolve.
“No fim das contas, a advocacia estratégica segue sob a condução direta de profissionais qualificados, em um cenário no qual algoritmos aceleram processos, mas não substituem sensibilidade, intuição e escuta. É nesse equilíbrio entre eficiência tecnológica e julgamento humano que o Direito contemporâneo vem sendo redesenhado”, finaliza Leonardo.
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