Psiquiatra da Rede Mater Dei alerta para os riscos da obsessão pela alta performance e da hiperconectividade digital no adoecimento emocional da população
O Janeiro Branco, campanha que propõe ampliar o debate sobre saúde mental no início do ano, chega em 2026 com alertas cada vez mais urgentes: a lógica de produtividade constante e o uso excessivo de plataformas digitais estão criando um cenário preocupante de adoecimento psíquico, especialmente entre jovens adultos. Para o Dr. Rodrigo Barreto Huguet, psiquiatra da Rede Mater Dei de Saúde, compreender os múltiplos fatores que levam a esse adoecimento é fundamental para uma abordagem efetiva de prevenção e tratamento.
Adoecimento mental
Segundo o especialista, o adoecimento mental segue um modelo de estresse e diátese (uma predisposição), no qual as pessoas possuem uma vulnerabilidade que vem de sua genética, temperamento e experiências – muitas vezes, de infância. Essa vulnerabilidade pode gerar uma doença mental desencadeada por níveis de estresse altos e prolongados.
“A adolescência e o início da vida adulta já trazem motivos para ansiedade, como a necessidade de perseguir a independência financeira, o aprendizado em se relacionar com os outros e a lidar com suas emoções. A pessoa que tem um estilo de vida de trabalho e dever excessivos, sem tempo para lazer, descanso e prazer, vai ficar mais estressada e vulnerável a transtornos emocionais”, explica.
O médico aponta ainda outros fatores de risco importantes que contribuem para o adoecimento: uso excessivo de álcool e de outras drogas, descuido com a saúde física, alimentação e sono ruins, além da falta de vínculos sociais. Esses elementos, combinados, criam um terreno fértil para o desenvolvimento de transtornos mentais, que também ganham contornos a partir dos contextos social, demográfico e econômico.
Quando a busca pela excelência se torna armadilha
A cultura de alta performance e cobrança constante representa um dos principais desafios para o bem-estar emocional ao longo do ano. O psiquiatra recorre à filosofia aristotélica para ilustrar o equilíbrio necessário entre esforço e autocuidado.
“Como dizia Aristóteles, a virtude fica entre dois defeitos. A pessoa buscar excelência, se esforçar em dar seu melhor e perseguir suas metas é virtude. Mas se ela não reserva tempo para se cuidar, se não é generosa consigo e não aceita que fracassos são parte do processo, que se aprende e caminha com os erros, se ela se desqualifica e sofre excessivamente quando não tem sucesso, então o perfeccionismo pode virar um defeito, lhe causando estresse, ansiedade e angústia, e até a afastando de seus objetivos”, pondera o especialista.
Dr. Rodrigo Barreto Huguet também reforça uma perspectiva importante sobre o sentido da vida e a forma como perseguimos esses objetivos: “É importante ter metas, mas sempre se lembrando que a vida é o que acontece enquanto perseguimos essas metas”.
Sequelas persistentes da pandemia
Mesmo com o fim do período mais crítico da COVID-19, os impactos tardios da pandemia continuam demandando atenção clínica e representam um desafio importante para profissionais de saúde mental. “Algumas pessoas têm tido dificuldades para se recuperar da pandemia, do isolamento social e da perda de bons hábitos, como atividade física, e de maus hábitos como o uso excessivo de redes”, observa o especialista.
Nesse contexto de hiperconectividade, as plataformas digitais surgem como um dos fatores mais preocupantes. O Panorama da Saúde Mental 2024, realizado pelo Instituto Cactus, constatou que o uso excessivo de redes sociais tem ligação direta com o estado de saúde mental de milhões de brasileiros, estando associado a 45% dos casos de ansiedade em jovens.
“As redes sociais em excesso podem causar ansiedade e estresse por uma série de razões. Podem tomar tempo em excesso, dificultando o engajamento em atividades mais saudáveis e produtivas, como atividade física, relacionamentos mais significativos, estudo, leitura. Podem deixar a pessoa angustiada pela comparação com perfis em que os outros parecem sempre mais ricos, bonitos, felizes e com vidas mais interessantes”, detalha o psiquiatra.
Dr. Rodrigo Barreto Huguet alerta ainda para outro mecanismo nocivo das plataformas: os algoritmos. Segundo ele, ao captar nosso tempo e atenção, apelando a conteúdos que nos mobilizam, inclusive pelo ódio, o algoritmo leva ao estresse pelo envolvimento repetido em interações que despertam sentimentos negativos. “Redes sociais em excesso podem ainda nos manter em nossas bolhas, dificultando o diálogo, a análise aprofundada e o contato com o contraditório”, diz.
Sobre as melhores formas de prevenir transtornos mentais e incentivar essa prevenção na população, o psiquiatra da Rede Mater Dei enfatiza a importância de uma abordagem que começa desde os primeiros anos de vida.
“A melhor forma de prevenir transtornos mentais é cuidar de nossas crianças, lhes proporcionando um ambiente seguro e amoroso para se desenvolverem. Além disso, é importante ter equilíbrio entre dever e lazer, evitar o abuso de álcool e o uso de outras drogas, cuidar da saúde física, se exercitar, ter bons relacionamentos, sono e alimentação saudáveis”.
Ele reforça ainda a importância de buscar ajuda profissional sem preconceitos: “E se começar a ficar ansioso, triste, angustiado por períodos prolongados, sem causa compreensível, deve buscar auxílio. Seja uma psicoterapia, em casos mais leves, ou um psiquiatra, para casos moderados a graves.”
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