Três filhos sem pai e uma família que clama por Justiça em Livramento de Nossa Senhora
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Assassinato de Luan Stefano da Silva Nunes, ocorrido em outubro de 2025 na zona rural do município baiano, segue em tramitação na Vara Criminal e avança pelo rito do Tribunal do Júri

 

O assassinato de Luan Stefano da Silva Nunes, 36 anos, ocorrido no dia 12 de outubro de 2025, no povoado Matinha, zona rural de Livramento de Nossa Senhora (BA), segue repercutindo na comunidade local e atravessando a rotina de uma família que tenta aprender a conviver com uma ausência definitiva. 

O caso tramita na Vara Criminal da Comarca e avança pelo rito do Tribunal do Júri. Enquanto isso, três crianças crescem sem o pai, e uma mãe insiste em manter viva a memória de quem, até então, era presença constante dentro e fora de casa.

De acordo com informações constantes nos autos e na denúncia apresentada pelo Ministério Público, o crime ocorreu durante um evento público realizado em um bar da comunidade, em um momento em que diversas pessoas estavam no local. 

Luan Stefano teria sido surpreendido e atacado com golpes de arma branca, em uma ação descrita como abrupta e violenta. O cenário, segundo relatos constantes no processo, foi de choque entre os presentes, que testemunharam a agressão em um espaço até então associado à convivência social da região.

Conhecido na comunidade como goleiro do time da localidade vizinha Telha, Luan era descrito por moradores como alguém participativo, tranquilo e envolvido nas atividades locais. O futebol, segundo amigos, era mais do que lazer: era ponto de encontro, era identidade comunitária, era espaço de pertencimento. Fora dos campos improvisados, sua rotina era dividida entre o trabalho e a família. Pessoas próximas afirmam que ele vivia um momento estável, dedicado aos filhos e aos compromissos do dia a dia.

O Ministério Público denunciou Tharles Wyllyam Costa da Silva, Saturnino de Jesus Silva e Tauany Silva Mandu por homicídio qualificado. As qualificadoras apontadas são motivo fútil e recurso que dificultou a defesa da vítima. A investigação reuniu testemunhos de pessoas que estavam no local e informações técnicas relacionadas à arma utilizada, cuja confirmação pericial integra os autos do processo.

Atualmente, Tharles Wyllyam Costa da Silva e Saturnino de Jesus Silva permanecem em prisão preventiva. Já Tauany Silva Mandu responde em liberdade provisória, sem o uso de tornozeleira eletrônica. O processo tramita sob segredo de justiça e encontra-se na fase de instrução, etapa em que são ouvidas testemunhas e realizados interrogatórios para formação da culpa. 

Caso o juízo entenda pela existência de indícios suficientes de autoria e materialidade, poderá haver decisão de pronúncia, encaminhando o caso para julgamento pelo Júri Popular.

Até o momento, não há registro de nulidade processual declarada, tampouco risco de prescrição, considerando a gravidade da imputação. O andamento segue os trâmites legais previstos para crimes dolosos contra a vida.

Para além das formalidades jurídicas, porém, a história é marcada por lacunas que não podem ser preenchidas por despachos ou audiências. Luan Stefano deixou três filhos menores, de 14, 9 e 3 anos. Três crianças que, desde aquela noite de outubro, passaram a organizar a vida em torno de uma ausência.

A família afirma que a dor não se resume à perda física, mas à interrupção de uma convivência cotidiana. São aniversários que terão uma cadeira vazia, decisões que serão tomadas sem a orientação paterna, pequenas conquistas que não poderão ser compartilhadas com quem sempre esteve presente. A rotina foi atravessada por uma violência que não permitiu despedidas e que transformou um momento público em lembrança permanente.

Em cidades do interior, onde as relações sociais costumam ser mais próximas e os laços comunitários mais visíveis, episódios de violência geram impacto que ultrapassa o núcleo familiar. Moradores relatam que o caso provocou sentimento de insegurança e perplexidade. O fato do crime ter ocorrido em um ambiente público reforçou a sensação de vulnerabilidade. Para muitos, o que aconteceu naquela noite rompeu uma ideia de previsibilidade que costumava marcar a dinâmica local.

A mãe das crianças, segundo familiares, tenta manter a estabilidade emocional dos filhos enquanto acompanha o andamento processual. O cotidiano envolve escola, compromissos médicos, tarefas domésticas e, paralelamente, a necessidade de lidar com perguntas que ainda não têm respostas definitivas. Como explicar a ausência a uma criança de três anos? Como ajudar um adolescente a lidar com o luto em meio às transformações próprias da idade? Como reorganizar financeiramente e emocionalmente uma estrutura familiar que dependia da presença de quem partiu?

A família reforça que não busca vingança, mas Justiça. “Não se trata apenas de um número em estatística criminal. São três crianças que perderam o pai. Uma mãe que clama por Justiça. Queremos Justiça”, afirmam.

O caso também evidencia uma realidade mais ampla: o impacto da violência nas estruturas familiares, especialmente em comunidades menores, onde a rede de apoio é fundamental para a sobrevivência emocional e econômica. Quando um homicídio atinge o núcleo de uma família com crianças, as consequências se prolongam no tempo, influenciando trajetórias, oportunidades e memórias.

Especialistas em dinâmica social apontam que o acompanhamento processual em crimes dessa natureza é parte importante da reconstrução simbólica da ordem comunitária. O julgamento pelo Tribunal do Júri, quando ocorre, representa não apenas um ato jurídico, mas um momento de resposta institucional diante de um fato que abalou a coletividade.

Enquanto o processo segue seu curso, a família de Luan Stefano insiste na preservação da memória daquele que, para eles, não pode ser reduzido a uma condição de vítima em papel timbrado. Era pai, era filho, era amigo, era atleta da comunidade. Era presença concreta na vida de três crianças que agora crescem com lembranças fragmentadas e histórias contadas por terceiros.

O sentimento que atravessa os relatos familiares é o de que o caso não pode ser tratado com indiferença. A dor permanece diária, silenciosa e constante. A ausência não diminui com o passar dos meses; apenas se transforma em rotina.

E, para a família, o que permanece é uma convicção simples e direta: o caso de Luan não pode ser esquecido.

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